Você tem medo de quê?

‘Meus olhos arregalados não piscam para qualquer um

 e nem fecham por qualquer medo.’ (Martha Medeiros).

 

Imagine-se passeando serenamente em um campo aberto. Uma sombra de repente se move e entra no campo de sua visão periférica. Como você reage? Qual é o seu estado interno? O que você sente ou percebe em reação à visão da sombra que se move?

Num estudo com vítimas de estupro, muitas delas conseguiam se lembrar da presença dos sinais de perigo que tinham ignorado ou desconsiderado.

Já os estupradores, com base na postura e no modo de andar da mulher que estava com medo, identificava a presa fácil.

Habilidade predatória de ler o medo e a vulnerabilidade são engenhosamente refinadas.

Você já pensou sobre como os animais expressam o medo? E os humanos?

No mundo animal o pavor é companhia frequente, essa é a herança de ansiedade dos ancestrais imediatos: os macacos e gorilas.

Já os povos pré-históricos refugiavam, viviam amontoados em cavernas. Embora não mais vivamos em cavernas, ainda conservamos as expectativas de que algum perigo possa acontecer.

O medo pode ser paralisante, que impede retornar ao equilíbrio e vida normal.

 

REAÇÕES AO MEDO

Contra o predador podemos lutar, fugir, imobilizar ou desmoronar (reações instintivas).

Na imobilização, ficamos “paralisados de medo”. No desmoronamento, sem energia para nutrir a vida, perdemos a vontade de viver.  Paralisado ou desmoronado, em ambos os casos temos uma vivência física, corporal de medo intenso.

A imobilização ou fingir-se de morto, é a estratégia utilizada por animais pequenos, pois lutar ou fugir pode ser fatal. Quando o animal permanece imóvel, reduz o impulso do predador matá-lo e come-lo, geralmente é abandonado. Confere também certa invisibilidade, que provavelmente não será visto pelo predador. Pode distrair o predador enquanto o resto do bando foge.

Na imobilização, a dor extrema e pavor são atenuados (inundação de endorfinas) e caso haja oportunidade poderá fugir. Vítimas de estupro ou acidentes, no estado de analgesia, podem testemunhar, pode ocorrer uma dissociação, distanciamento que ajuda a suportar o insuportável.

Por outro lado, podemos  recuperar o equilíbrio, mesmo quando situações conflitantes acontecem. Saber que a dor passa, que o sentimento muda, liberta-nos da sensação de estarmos condenados.

Da imobilidade e colapso devastadores, o sistema nervoso encontra o caminho de volta ao equilíbrio. Nem tudo é perigoso, estamos prontos para os próximos passos, dentre eles, expulsar a atitude de derrota e desamparo e restaurar o sistema de defesa ativa, incorporar a proteção bem sucedida que promova nossa proteção e segurança.

Essa atitude ajuda a dissolver a culpa e o autojulgamento arraigados que podem ser subprodutos do desamparo e raiva reprimida. O corpo precisa entender que éramos vítimas indefesas.

Frente ao medo podem ocorrer ondas de tremor, mudanças na respiração, trata-se de. descarregar a enorme energia, quando deveria lutar, fugir ou autoproteger-se. Se você se prepara para lutar ou fugir e essa ação não ocorre, essa energia potencial fica armazenada, arquivada.

É importante libertar-se do isolamento que o medo e a imobilidade trazem. A libertação dos sintomas gera energia para o estabelecimento de conexões e relacionamentos prazerosos.

A capacidade de interação social tem grandes consequências para a saúde e a felicidade, é também autocalmante.  Pessoas com fortes vínculos pessoais podem ter vida mais longa e saudável, além de manter habilidades cognitivas mais aguçadas na terceira idade. Não se trata de envolver-se no mundo social tão somente, mas engajar-se no aqui e agora, ter sentimento tanto de pertencimento quanto de segurança.

 

 

Texto escrito pela aconselhadora biográfica Delcimar Cunha.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Desacoplando o medo da imobilidade

Tocar as próprias sensações de imobilidade, mesmo que por um breve momento, permite “desemaranhar”, por outro lado, desacoplamento abrupto pode ser explosivo, assustador e retraumatizante. A condução deve ser gradual, até encontrar um equilíbrio tranquilizador.

Medo de ENTRAR na imobilidade: sentimento de desamparo, aprisionamento e vulnerabilidade, que podem se assemelhar ao estado de morte.

“O tempo cura todas as feridas, não se aplica ao trauma”.

Medo de SAIR da imobilidade: da paralisia e do desligamento à hiperagitação e à fúria. Como um animal imobilizado que desperta, na presença do predador, pronto para um contra-ataque.

A saída da imobilidade é inibida, pois precisa vivenciar as sensações de raiva e de intensa energia, ao mesmo tempo, tais sensações evocam a possibilidade de perigo mortal. Estado catatônico. Direciona contra si na forma de depressão, ódio de si mesma e autoagressão.

Consequências: vergonha (no caso do abuso, por não ter conseguido lutar), exaustão.

Ao readquirir sensação de autonomia e poder, perdoam e se aceitam. Sentem compaixão pela imobilidade.

Ao resolver a resposta inata de paralisia, a pessoa abre-se para uma sensação de alívio existencial, gratidão transformadora e vitalidade.

Passo 7: Resolver os estados de ativação promovendo a descarga da energia de sobrevivência mobilizada para preservar a vida.

Reações involuntárias: respostas passivas substituídas por ativas:

 

 

 

Passo 8: Restaurar a autorregulação e o equilíbrio dinâmico

O trauma poderia ser chamado de distúrbio na capacidade de alguém de estar ancorado no presente e de saber se relacionar com  outros seres humanos.

Passo 9: Reorientar o ambiente para o aqui e agora

O trauma poderia ser chamado de distúrbio na capacidade de alguém de estar ancorado no presente e de saber se relacionar com outros seres humanos. Importante restaurar a capacidade de presença, de estar no “aqui e agora”.

Interação social: grandes consequências para a saúde e felicidade. É autocalmante, vida mais longa e saudável,  habilidades cognitivas aguçadas. Mais do que sentir-se engajado, mas o sentimento de pertencimento que proporciona segurança. Libertar-se do isolamento gera energia para o estabelecimento de conexões e relacionamentos prazerosos.

 

 

 

 

 

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