Faz parte da nossa cultura, enraizada nos saberes populares, a conduta de tomar um “chazinho” de vez em quando. É um chá de boldo para quando exageramos em comidas pesadas, para aliviar os sintomas da ressaca, é um chá de camomila para acalmar e auxiliar na digestão, e tantas outras opções…
Escuto muito no consultório meus pacientes falarem: “Ah é natural, não vai fazer mal…”
Engana-se quem pensa assim…. Das práticas integrativas e complementares, a fitoterapia é uma das terapias que mais produz estudos científicos sobre os efeitos terapêuticos, adversos e os resultados das interações medicamentosas (fitoterápico X fármaco).

No Brasil o CONBRAFITO (Conselho Brasileiro de Fitoterapia), vem desenvolvendo um trabalho bacana desde 2009 com o intuito de instruir, gerar e atualizar os conhecimentos sobre as plantas medicinais, promovendo anualmente o Congresso e cursos de formação em fitoterapia.

Embora sua fonte sejam as plantas medicinais, os fitoterápicos são medicamentos, utilizados para reestabelecer a homeostase do corpo nos níveis fisiológico e psicológico. Sua eficácia e margem de segurança de indicação terapêutica e utilização, são validadas pela etnofarmacologia, documentações científicas publicadas e devidamente fiscalizadas pela ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).

É vital pontuarmos o conceito: a planta medicinal é a forma como ela é encontrada na natureza, para beneficiar-se dos seus efeitos terapêuticos, é preciso conhecê-la, saber onde, como e quando colhê-la, e o fundamental, prepará-la. Quando a planta medicinal passa pelo processo de industrialização (evitar contaminações por microorganismos, agrotóxicos, padronizar quantidade e a forma correta de utilização, proporcionando maior segurança) estamos falando dos fitoterápicos, que devem ser registrados antes de serem comercializados.

 

Algumas dicas importantes sugeridas pela própria ANVISA
– Buscar informações com os profissionais de saúde;
– Informar ao profissional da saúde qualquer reação desagradável que aconteça enquanto estiver usando plantas medicinais ou fitoterápicos;
– Observar cuidados especiais com gestantes, lactantes, crianças e idosos;
– Informar ao profissional da saúde que está acompanhando seu caso, se está utilizando plantas medicinais ou fitoterápicos, principalmente antes de cirurgias;
– Adquirir fitoterápicos apenas em farmácias e drogarias autorizadas pela Vigilância Sanitária;
– Seguir as orientações da bula e rotulagem;
– Observar a data de validade – Nunca tomar medicamentos vencidos;
– Seguir corretamente os cuidados de armazenamento;
– Ter cuidado ao associar medicamentos, o que pode promover a diminuição dos efeitos ou provocar reações indesejadas.
– Desconfiar de produtos que prometem curas milagrosas.

 

EVITE
Comprar plantas medicinais secas em feiras livres ou em lojas, cuja armazenagem é desconhecida, elas podem ser foco de fungos e bactérias, fora que depois de secas, muitas folhas podem ser confundidas.
Desconfie de tinturas, ou extratos que estejam armazenados em recipientes plásticos, sem o devido registro nos órgãos regulamentadores, bem como o farmacêutico responsável por aquele lote.

 

ATENÇÃO

Os usuários de fitoterápicos são em sua maioria adultos e idosos, é comum que utilizem medicamentos alopáticos associados, e como vimos os fitoterápicos também são medicamentos, por isso precisam do acompanhamento de um profissional que possa orientar o paciente, principalmente na hora de indicar uma tintura, cápsula, pomada, ou até mesmo o chá com as plantas escolhidas.

Associá-los pode até não gerar efeito nenhum em alguns casos, mas pode ser que um anule o efeito do outro ou até mesmo potencialize-os. Observe alguns exemplos abaixo:

Fitoterápicos com efeito laxante (p.ex. Sene, Cáscara Sagrada, Ruibarbo, etc…)
Como o sene é um laxante forte, por diminuir o tempo do trânsito intestinal, pode interferir diretamente na absorção dos medicamentos que são absorvidos via oral (cálcio, ferro lítio, digoxina e anticoagulantes orais).

Fitoterápicos com efeito diurético (p.ex. Carqueja, Alcachofra, Cavalinha, etc…)
A Alcachofra potencializa os efeitos diuréticos, diminuindo o volume sanguíneo, provocando quedas de pressão arterial por hipovolemia, baixos níveis de potássio na corrente sanguínea.
A Cavalinha é outra planta que precisa ser administrada com cautela em pacientes com cálculo renal, ou redução da atividade dos rins, ela é rica em silício, o que pode piorar ou agravar o quadro clínico.
As interações mais graves envolvem os diuréticos como: furosemida e tiazídicos (Clortalidona, Hidroclorotiazida, Indapamida).

Fitoterápicos com efeito hipoglicemiante (p.ex. Gymena, Ginseng, Gengibre, etc…)
Podem ter um efeito sinérgico com outros agentes hipoglicemiantes. Em um paciente pouco desinformado, um agente hipoglicemiante de origem vegetal pode provocar níveis perigosamente reduzidos de glicose no sangue.

O Ginseng quando administrado com anticoncepcional, pode provocar efeitos adversos, pois aumenta a atividade estrogênica, tais como dor nas mamas e sangramento menstrual excessivo.

Fitoterápicos com efeito anticoagulante (p.ex. Ginkgo Biloba, Angélica, Alho, etc…)
Podem aumentar o risco de sangramento em pacientes que utilizam medicamentos como varfarina, AAS ou outros inibidores da agregação plaquetária. Fitoterápicos que possuem cumarinas também podem contribuir para a ocorrência de transtornos hemorrágicos.

OLHA O PERIGO!Segundo a farmacologista Elizabeth Prado, pacientes que associaram varfarina ou aspirina com Ginkgo Biloba tiveram hemorragia, mesmo usando doses recomendadas. O Ginko Biloba também pode reduzir a concentração plasmática do Omeprazol, medicamento utilizado para o tratamento de úlcera e refluxo.

Fitoterápicos com efeitos sedativos, calmantes e depressores de sistema nervoso central (Kawa Kawa, Valeriana, Passiflora, etc…)
Podem potencializar os efeitos sedativos de outras drogas utilizadas em associação. A Passiflora pode interagir com hipnóticos, ansiolíticos, inibidores da MAO, anti-histamínicos e o álcool, intensificando a sua ação. Já a Valeriana possui ação depressora do SNC, potencializa o efeito depressor de outros medicamentos alopáticos com a mesma ação (benzodiazepínicos, barbitúricos, alguns antidepressivos e o álcool).

 

Alguns estudos observam a administração do óleo essencial de eucalipto com sintomas de dificuldade de concentração e raciocínio, além de alterações no sistema nervoso, que podem ser intensificados quando esse tipo de medicamento for associado. Além disso o óleo também diminui os níveis de açúcar no sangue, e deve ser usado com precaução em pacientes diabéticos.

 

Vai continuar achando que não faz mal? Sua saúde é seu bem mais precioso… Então cuide-se!

Saúde!

 

Texto escrito pela naturóloga Michelly Paschuino.

Para currículo completo da profissional acesse aqui!

 

 

 

 

 

 

FONTES:
http://www.anvisa.gov.br/medicamentos/fitoterapicos/poster_fitoterapicos.pdf
http://www.tudosobreplantas.com.br/blog/wp-content/uploads/2011/02/drgvege.pdf

TEIXEIRA, João Batista Picinini & SANTOS, José Vinicius dos. FITOTERÁPICOS E INTERAÇÕES MEDICAMENTOSAS.

Silveira PF, Bandeira MAM, Arrais PSD. Farmacovigilância e reações adversas às plantas medicinais e fitoterápicos: uma realidade. Revista Brasileira de farmacognosia Brazilian Journal of Pharmacognosy 18(4): 618-626 Out./Dez. 2008.

Nicoletti MA, Oliveira Júnior MA, Bertasso CC, Caporossi PY, Tavares APL. Principais interações no uso de medicamentos fitoterápicos.
Fonte das imagens: www.portalpedrabonita.com.br e www.crfrs.org.br

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