Atualmente, com a velocidade das informações proporcionada pela eficiência dos meios tecnológicos, nossos cérebros iniciam naturalmente um processo de adaptação. A sensação é de que se não ficarmos alertas ficaremos desatualizados. Se formos pensar bem, nosso estilo de vida atual, com tantas coisas para resolver, tantas decisões para tomar, tantas pessoas que necessitam de nossa atenção (cônjuge, filhos idosos, etc.), regulamentos por todos os lados, por si só, já é um bom conjunto de motivos para uma verdadeira overdose mental.

Nossa referência de tempo mudou. Frases como “tempo é dinheiro” resumiriam a situação. Olhamos menos para o ciclo dia e noite, menos para as estações do ano e mais para os minutos pelo relógio. Em tempos não tão remotos, precisaríamos nos deslocar até as reuniões, encontros, pesquisas, época em que tínhamos tempo para o repouso da consciência. O que há apenas vinte anos atrás levaria dias para ser decidido, hoje podemos decidir em poucas horas. Nossa comunicação foi extraordinariamente acelerada pelos meios digitais, sobretudo na era dos smartphones. Assim ganhamos tempo para novas tarefas e então roubamos nosso tempo livre, mantendo nossas consciências alertas e com novas tarefas. Produtividade… será?

 

As consequências

A mais imediata consequência disso é a sensação de que o tempo está contra nós. Vivemos menos no tempo presente e mais mentalmente no futuro e passado. Essa é a causa principal das doenças mentais mais prevalentes nos dias atuais: a ansiedade e a depressão.

Outra consequência menos imediata decorre do desequilíbrio entre os processos vitais e a consciência. Mergulhados em meios digitais e tão acelerados quanto eles, nossa consciência continuamente ativa causa desvitalização de processos metabólicos, com imediatos prejuízos no humor e depois na imunidade, digestão, fertilidade e regeneração.

E não são somente nas doenças que podemos padecer. Com a desvitalização física, ficamos literalmente desanimados e indispostos na nossa vontade, o que causa uma fraqueza na nossa busca pela autenticidade, principalmente nos adolescentes.

De todas as consequências imagináveis, a mais sutil e a que mais me preocupa, a longo prazo, é uma espécie de atrofia da nossa capacidade de aprofundamento naquilo que pretendemos olhar ou estudar.

Nas navegações digitais, o conhecimento se torna raso e não há espaço para aprofundamentos. As relações interpessoais carregam essas mesmas características, com consequências drásticas dentro das famílias e casais. A diminuição de nosso foco, concentração e memória pode nos trazer consequência desagradáveis no pilar profissional.

Deste excesso de navegação nas superficialidades da internet deriva algo que me preocupa. Perdemos a capacidade de sermos seletivos, uma consequência bastante imediata da perda da busca pela autenticidade, causando na nossa juventude uma padronização de mind set.

Assim, aproximamo-nos de uma consciência coletiva, semelhante a dos animais. E por falar em animais, a incapacidade de aprofundamento que decorre desse fenômeno também ocasiona outra incapacidade: a de perceber ideias subliminares e as sutilezas das coisas, o que favorece um perfil embrutecido, pois as informações devem chegar mais brutas para que sejam percebidas.

Tédio e Solidão

Vale lembrar que da frequência em se desinteressar de determinado assunto, devido à disponibilidade de novos conteúdos de fácil acesso na navegação, decorre um desinteresse contínuo pelas coisas da vida, com seu tempo real. Talvez umas das causas dessa epidemia jovem de tédio e solidão. Acaba assim a possibilidade para a empatia. Vendo os índices de suicídio aumentando entre adolescentes, considero esse assunto da maior importância.

Uma outra consequência do estresse mental é uma necessidade de se desestressar aos finais de semana, mesmo que num curto período de tempo. Muitas vezes é nesse panorama que se abre as portas para álcool e drogas, pela necessidade aguda de um estímulo sensorial. Comida e compras podem ser enquadradas nesse mesmo contexto.

Temos que pensar com muito carinho no assunto para vermos qual o preço que estamos pagando pela evolução. Aliás, será isso, pensando na humanidade, uma evolução real?

 

As soluções

As soluções devem ser balizadas por uma ideia bastante simples: repousar a mente e aquecer o corpo.

Conseguimos esfriar a cabeça, aquietar a mente, na meditação, na arte, na contemplação da natureza. Conseguimos aquecer o corpo nas mais diversas atividades físicas como dança, lutas marciais, esportes e caminhadas em trilhas naturais.

 

Hiperatividade infantil

As crianças são criaturas com uma vivência interna e externa totalmente diversa de nós adultos. A grande diferença é a sua consciência terrena, ainda pouco desenvolvida e a vida emocional totalmente aberta às vivências.

Um olhar mais profundo para o fenômeno da infância nos revela seres extremamente sensíveis, alegres de natureza, felizes na simplicidade, ativos, de olhar penetrante e sedento. Apresentam momentos de desconexão, revelando uma profunda e rica vida interior. Seria um alerta de como viver bem?

Numa sociedade organizada como a nossa, acelerada, quantitativamente rica em informação, mas rasa na profundidade, com adultos em alta velocidade, ansiosos e estressados, perdidos em meios digitais, algumas crianças estão sendo taxadas de desajustadas. Mas seriam elas o ponto de desequilíbrio ou nós? Será que nós estamos alimentando suas almas de maneira adequada e harmoniosa?

As crianças necessitam de modelos a seguir, de gozar de experiências físicas, explorar seus limites físicos e sensoriais. Necessitam admirar (Do latim, olhar de perto) fenômenos naturais e contemplar (Do latim, estar no lugar sagrado com) o mundo. Esse olhar aprofundado para a criança mostra que admirando e contemplando, ela se envolve com observação, ao contrário do olhar do cientista. Logo, a sua observação serve para sua própria formação física, vital, anímica e espiritual.

Mundo Digital

Quando retiramos nossas crianças de suas naturezas e as entregamos aos meios digitais de entretenimento, podemos estar esfriando as suas percepções e, como consequência, o início do processo de formação de toda uma individualidade pluripotencial. Até podemos nos render aos modernos argumentos de que estaríamos assim acostumando nossos filhos ao mundo real, mas pense! O mundo de hoje, com todas as suas facetas, é igual ao mundo quando você, leitor, era uma criança?

Então qual seria o real benefício de jogar uma criança em meios digitais se é praticamente certo que esses meios de hoje estarão obsoletos e indisponíveis quando essas crianças forem adultos maduros? Será que afastados dos processos naturais de desenvolvimento, a criança será um adulto com os valores, sentimentos e capacidades necessários para amenizar os problemas que tanto assolam a humanidade? Seria por meio de entretenimento digital que os futuros gestores da humanidade teriam seus primeiros aprendizados, como sonha Andre Conte-Sponville, a família, respeito, justiça, fidelidade, boa fé, amor, temperança, altruísmo, gratidão, coragem, humildade, simplicidade, pureza, perdão, polidez, prudência, compaixão, tolerância, doçura e descontração?

Na verdade, as crianças, por um processo de modelagem natural, imitam suas os adultos de referência. Será, portanto, que não somos nós os hiperativos?

Acabamos por mantê-las quietas como que drogadas nos eletrônicos e levianamente rotulamos essas crianças de hiperativas. E aí vem a covardia final: remédios à base de ritalina para acalmá-las. Drogamos nossas crianças como fazemos com a nossa criança interior, quando ela pede calma, atenção e aconchego.

Não compreendemos a grandeza da missão que elas, e todos nós, temos de ensinar que todos precisamos de tempo, paz, amor e proteção.

Suas almas apenas anseiam por retomar o contato com os ensinamentos mais profundos que já tiveram contato e se sentem incomodadas quando não são colocadas em um ambiente adequado, com um conhecimento superficial da existência humana, que nada lhes acrescenta. Sem contato com a Natureza, sem carinho e atenção que necessitam no dia a dia, com excesso de estímulo eletrônico, sem poderem se expressar artisticamente através da música ou da arte, sem poder exercer sua espiritualidade no cotidiano, sentem-se tolhidas em sua grandeza. Como queremos que elas se comportem bem?

As soluções

Para acalmar as nossas crianças ditas hiperativas, é primordial que antes acalmemos a nós mesmos.

Depois, devemos oferecer a elas a simplicidade de uma vida equilibrada. Temos que permitir que elas possam brincar com objetos simples, estar em sintonia com os elementos da natureza e com a sua própria natureza. Elas precisam viver de acordo com seu ritmo infantil e não ao ritmo acelerado e estressante do universo adulto atual. Precisam ser preservadas de conteúdos que a despertem para o consumo, violência e sexualidade precoce.

É de nossa responsabilidade, como sociedade, alimentar as crianças com exemplos de vida dos grandes modelos de conduta, heróis verdadeiros, que nos ensinam sobre como viver nesse mundo, mantendo uma vida permeada de virtudes e valores. Biografias por exemplo de São Francisco, Gandhi, Luthero, Buda e Jesus são inspiradoras. As crianças pedem uma conexão com algo maior e querem se sentir seguras, confiantes, felizes e únicas. Não merecem serem tratados como “another brick on the wall”, parafraseando Pink Floyd. E o que nós adultos fazemos com ela nesse sentido?

 

Em resumo, tudo o que essas crianças estão desesperadamente nos pedindo é amor, manifestado em gestos e palavras. Essa é chave para a compreensão do seu universo; assim elas compreenderão tudo que nós adultos dissermos a ela. Mas sem essa chave, nada nem ninguém poderá penetrar em seu mundo.

Mas como oferecer tudo isso a elas, se nós adultos não sabemos o que é a paz? Sabemos como estabelecer esse contato com ela? Neste ponto, a nossa sociedade deve refletir. Para dar o amor altruísta, calmo e seguro que elas precisam, necessitamos estar em paz conosco mesmos e com a comunidade ao nosso redor.

Quando nos permitimos despir a capa do ego e olhar para dentro da alma? Na meditação. É nesse caminho de volta para nós mesmos que vamos nos achar em essência. É na paz que decorre da meditação que realmente encontramos a porta para o amor e a compaixão, que então nos levará à compreensão total desses pequenos, mas divinos seres, nossas crianças. Precisamos tirar os véus da consciência, como a pressa, o egoísmo, a ansiedade, a irritação, a vaidade e a ambição, pois distorcem a realidade e são inúteis para nossa felicidade.

Todos somos responsáveis pela felicidade das crianças do planeta.

Cuidar das nossas crianças é cuidar de nós mesmos.

 

 

Texto escrito pelo Médico Clínico e Antroposófico

Rodrigo Caltabiano.

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