Cultura de Paz e ação no momento presente

Cultura de Paz e ação no momento presente

O conceito de Paz permite diferentes interpretações e concepções; muitas vezes é entendido e aplicado como a ausência de guerra, o que pode conduzir (de forma equivocada) a uma “fuga” ou tentativa de se evitar o conflito. Este entendimento restrito e limitado do conceito de paz permite muitas confusões no estudo e principalmente na aplicação prática da “Cultura de Paz” e não-violência. É comum vermos pessoas leigas (e muitas vezes também pessoas que se dedicam a este tema) associarem a Cultura de Paz a comportamentos de passividade, inação, comodidade, alienação e conformismo.

A Cultura de Paz, porém, é altamente questionadora, reflexiva e combativa; rejeitando de forma ativa a violência sob todas as suas formas: física, sexual, psicológica, econômica e social. Mas não evita os conflitos, e os enxerga como oportunidades de crescimento, evolução e desenvolvimento de sabedoria. De forma consciente busca solucioná-los através do diálogo e da escuta, da empatia e compreensão, do respeito às diferenças e valorização da diversidade.

Neste sentido, o oposto de Paz não é a guerra, mas sim a estagnação. A Vida é fluxo, é movimento; e a essência da própria existência é a transformação. Tudo está em constante movimento, em contínua transformação, inclusive cada um de nós, o planeta Terra e todo o Universo. É essencial que nos reconheçamos como parte deste fluxo contínuo da Vida.

Para agir de acordo com os princípios da Cultura de Paz é preciso estar plenamente consciente de cada escolha e atitude, com uma visão ampla, holística e integradora. Agir (ou re-agir) de forma automática e inconsciente, reproduzindo discursos, opiniões e comportamentos com visões fragmentadas da realidade, ou agir influenciado por condicionamentos e crenças limitantes, não é coerente com a Cultura de Paz.

A Cultura de Paz é ação CONSCIENTE no momento presente. Consciente da plenitude de sua própria presença. Consciente da sua cota de responsabilidade pela co-criação da nova realidade que se manifesta a cada instante. Consciente de que cada gesto, palavra, postura, pensamento, atitude ou iniciativa é uma escolha de sua responsabilidade que reforça uma visão de mundo. Qual é a visão de mundo que você está ajudando a construir?

Quão consciente você está das escolhas que tem feito a cada momento? Você tem agido de forma consciente e responsável? Ou apenas tem (re)agido automaticamente de forma inconsciente, inconsequente e irresponsável? Aliás, a palavra responsabilidade significa responder com habilidade, a habilidade de responder conscientemente a cada estímulo que a vida nos oferece, sem apego e sem aversão.

E para tanto é essencial que superemos duas grandes ilusões que nos afastam da Cultura de Paz, ou ao menos caminhar no sentido da superação destas ilusões: a ilusão da separatividade e a ilusão do controle.

A primeira nos faz acreditar que somos apartados das outras formas de vida, que somos isolados da Natureza e separados uns dos outros, criando ilusões de antagonismo e “inimigos externos”; fragmenta todo o nosso conhecimento e nos faz crer que mente, corpo e alma/espírito são entidades separadas e independentes. Já a segunda, a ilusão do controle, nos dá a falsa sensação de que temos possibilidade de controlar o que vai acontecer ou não com nossas vidas e em nosso futuro, gerando ansiedade e frustração. É preciso se entregar para a realidade do momento presente, consciente de sua própria inteireza e da conexão com o Todo; para que cada um se reconheça como uma manifestação da sabedoria criativa da Vida.

Em teoria, a Cultura de Paz busca integrar o bem estar individual, a harmonia social/mundial, e o equilíbrio ambiental/ecológico; considerando as necessidades básicas essenciais, os princípios da simplicidade voluntária, a valorização da diversidade e o respeito às diferenças, a equidade de direitos, deveres e oportunidades; a distribuição justa e igualitária de bens, serviços e recursos; a conscientização e conservação ambiental, o desenvolvimento sustentável em relação harmoniosa com a Natureza, e o consumo consciente e responsável com respeito a todas as formas de vida.

Na prática diária é preciso estar consciente de como cada escolha que você faz reflete estes princípios e valores. O que você alimenta com suas escolhas de consumo? Suas atitudes são coerentes com a visão de mundo que você almeja?

Quando estivermos plenamente conscientes de nossa responsabilidade enquanto seres humanos e enquanto co-criadores da realidade, conectados com nossa essência e atentos às nossas escolhas em cada gesto, palavra, pensamento e ação, teremos a possibilidade de dissolver todas as formas de violência dentro de nós. E quando alcançarmos a coerência entre aquilo que pensamos, falamos e fazemos seremos agentes ativos da Cultura de Paz através do simples exemplo de cada dia. A nossa maior responsabilidade é oferecer generosamente o melhor que existe dentro de nós; é ser o melhor que você pode Ser a cada instante.

culturadepaz

 

Rafael Riani Costa Perinotto: focalizador de Meditação e Yoga. Biólogo, mestre em Meio Ambiente. Especialização em Educação e Cultura de Paz.

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Principais referências de inspiração para este artigo e sugestões de leitura:

‐ WEIL, Pierre. “A Arte de Viver em Paz: por uma nova Consciência e Educação”. UNIPAZ. Disponível em: http://pierreweil.pro.br/1/Livros/Portugues/on%20line/A%20Arte%20de %20Viver%20em%20Paz.pdf

– Manifesto 2000 por uma Cultura de Paz e Não-Violência (Direitos Humanos por um Novo Começo). Documento redigido por diversos ganhadores do prêmio Nobel da Paz. Disponível em: http://www3.unesco.org/manifesto2000/ ou em: http://www.comitepaz.org.br/o_manifesto.htm

– Declaração e Programa de Ação sobre uma Cultura de Paz. Relatório da Assembléia Geral da ONU de 06/10/1999.

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