Cirurgia do coração, como manter ele tranquilo?

Cirurgia do coração, como manter ele tranquilo?

E se de repente você descobrisse que precisa passar por uma cirurgia do coração? E se, nesse momento, visse as suas crenças colocadas em teste?

Descubra como foi a jornada de Adriana Souza, dentista e integrante do Círculo Saudável.

driiSempre me considerei uma daquelas pessoas felizes por natureza. Claro que tinha meus momentos de melancolia, mas tinha aquele jeito mais leve e otimista de encarar a vida, um tanto Poliana.

Desde a juventude passei por várias situações que não foram fáceis. Aliás foram bastante complicadas, e sempre tive uma maneira muito positiva e decidida de encarar os problemas. Não como uma vítima da situação, mas enxergando-as como obstáculos transponíveis e lições a serem aprendidas.

Depois de um breve contato com o yoga na infância e adolescência, a maternidade me fez enxergar a vida de uma maneira muito diferente. O foco mudou, passei a enxergar o mundo com outra lente, porém com as mesmas dúvidas, dificuldades e questionamentos.

Foi quando o yoga entrou de vez na minha vida. Nesse momento de extrema doação e ao mesmo tempo de busca pelo autoconhecimento. A filosofia do yoga me ajudou a aprofundar minha consciência e presença.

Isso aconteceu há cerca de 8 anos e segui um caminho muito agradável. Conhecendo várias práticas, técnicas e vivenciando experiências lindas de meditação. Mantive a minha essência e mas refleti muito sobre questões de aceitação, desapego e espiritualidade, como nos lembrava muito bem o Professor Hermógenes – entrego, confio, aceito, agradeço.

Ao mesmo tempo fui me aprofundando na filosofia do yoga – yoga citta-vrtti-nirodhah – acalmar os turbilhões da mente, e da meditação. O caminho espiritual, da busca do divino que há em nós.

O estudo dos ensinamentos do Yoga Sutra de Patanjali, a exemplo dos yama  – autocontrole (não ferir, ser veraz, não roubar, ser casto e não ser possessivo) e os nyiamah – as observâncias (limpeza, satisfação, austeridade, estudo e devoção) assim como a prática de asana e pranayama foram muito enriquecedores para o meu caminho, transformando-me numa pessoa menos reativa, com maior controle da ansiedade e mais compassiva.

Eu realmente acreditava que isso me prepararia para vida e que de alguma maneira o meu caminhar ficaria mais suave. O que não passava de uma ilusão de uma mente iniciante. Na verdade, aquela sensação de passar de fase, como num game, ficou cada vez mais intensa até chegar em um momento em que eu me vi completamente sufocada e confusa.

De alguma forma os problemas tornaram-se grandes demais e pareciam estar além do meu alcance (ou seria controle? Ah, as armadilhas do ego). Conflitos no casamento, no trabalho, problemas de saúde. Meu corpo começou a reagir a tudo isso de uma forma muito ruim e comecei a adoecer.

Eu tinha certeza de que era uma fase e de que aquilo tudo chegaria a um fim ou a um recomeço. Por outro lado, minha autoconfiança estava muito abalada. Me sentia tão mal fisicamente que comecei a me sabotar e me julgar, exatamente da maneira que havia aprendido a não fazer.

Apesar de aprender e praticar tanto, era muito mais difícil aplicar aquela prática no dia a dia do que eu era capaz de imaginar. E me senti extremamente incapaz.

Não conseguia utilizar a filosofia que me era tão cara para desenvolver autocontrole e observância. Me julgava fraca, porque mesmo depois de tantos anos de prática de yoga e meditação, e de conhecer tantas ferramentas poderosas. Era impossível controlar os efeitos de todo o estresse no meu corpo, e acalmar a minha mente e o meu coração.

Comecei a sentir crises de ansiedade e taquicardia frequentes e me julgava muito mal por causa disso.

Com o tempo os problemas foram se resolvendo. Nem sempre da maneira que eu julgava ser a melhor, mas alguns de uma maneira muito linda. Por conta de um esforço muito grande da minha parte. Uma separação muito amigável, uma mudança de casa, de escola, de horários, a paz reconquistada no ambiente de trabalho depois de muita loucura. Pessoas tóxicas deixadas para trás e amizades reconstruídas.

Mas aquela sensação de peso, a angústia e o coração atormentado não me largavam. Eu me sentia sempre mal e me julgava mal.

Até que um dia, numa consulta com o cardiologista, recebi o diagnóstico de arritmia, não uma, mas duas. Um problema elétrico no coração que me causava a maior parte dos sintomas que eu achava serem provocados por ansiedade e estresse e inclusive havia tentado tratar de outras formas, mas sempre os sintomas, nunca a causa.

Foi um susto, já saí do consultório com uma indicação para cirurgia. Ninguém fica feliz com essa notícia, mas eu estava decidida a resolver o problema. Era mais um que eu daria conta.

Depois de passado o susto e quando comecei a pensar sobre aceitação, aconteceu uma revelação. Consegui enxergar que, na realidade, eu não estava sendo incapaz de aplicar a minha prática e os ensinamentos,  e que não eram crises de ansiedade emocionais.

Havia um problema maior, e eu tinha sim me utilizado de todas as ferramentas que possuía para mantê-lo sob controle enquanto todo aquele turbilhão de vida me jogava para todos os lados.

E isso foi uma transformação enorme na minha autopercepção.  Eu entendi o quanto eu estava me julgando e me violentando desnecessariamente, erroneamente. E mais uma vez eu consegui enxergar nitidamente como tudo nesta vida é aprendizado. Que as vezes o ego nos deixa cegos, e que as vezes somos rebeldes com a lição, mas ela sempre se evidencia em nosso caminho.

Segui.

O prognóstico não era exatamente o que eu queria. Trataria uma arritmia com cirurgia e a outra com remédio, devido à complexidade do procedimento.  Mas eu me sentia muito confiante, me sentia forte novamente. Eu olhava para trás e enxergava quantas dificuldades eu encarei com um equilíbrio que havia sido construído ao longo da minha vida.

E mesmo com o prognóstico de uma cirurgia um pouco mais complicada. Na qual eu teria que estar acordada e sentir dor, fui para a sala com a certeza de sairia melhor. E claro com muita confiança na equipe que escolhi com os olhos do coração.

Tudo transcorreu perfeitamente. Começamos com anestesia geral, fui acordada e continuamos e a energia de cura era tão grande que havia conversa e risadas. A dor ficou menor que tudo isso, pois havia um propósito maior. Todos comemoramos juntos ao final.

De tudo isso o mais importante para mim foi conseguir enxergar as lições. Continuar acreditando que tudo o que vivemos é uma oportunidade de aprendizado e que muitas vezes queremos controlar todas as situações. Mas é preciso entregar os problemas, confiar que eles estão ali porque precisamos deles para a nossa evolução, aceitar os desafios e ter muita calma, desapego e amor para aprender as lições que precisamos, e então sentiremos gratidão, felicidade e paz.

É como um sinal divino nos dizendo: você está no caminho certo, vá ser feliz..

dri ioga

 

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Texto escrito por Adriana Souza, dentista e sereia. 😉

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