A deglutição e mastigação ao longo da vida

A deglutição e mastigação ao longo da vida

Esse texto é um resumo do que foi apresentado no “Encontro Círculo Saudável: Nutrição e Saúde do Sistema Digestivo” pela fonoaudióloga Izabel Viola e pretende mostrar que ter deglutição e mastigação eficientes, em qualquer fase da vida, é absolutamente importante para a saúde do organismo.

A deglutição é uma atividade reflexa presente desde a vida intrauterina. O reflexo é disparado ao toque do alimento no pilar glossofaríngeo, musculatura que junto com a úvula (também conhecida como campainha) lembra um portal, localizado no final da arcada dentária.

Para que a deglutição ocorra com movimento muscular preciso e sincrônico é preciso que ocorram três fechamentos, a saber:

1. Fechamento dos lábios com pressão da ponta da língua atrás da arcada dentária superior.

2. Fechamento da cavidade nasal, por pressão do palato mole contra a parede faríngea.

3. Fechamento das vias aéreas inferiores, por abaixamento da epiglote, possibilitando que o alimento acesse o esôfago com segurança. Embora o disparo da deglutição seja reflexo até este ponto do tráfego alimentar, é possível refluir de forma voluntária. Quando o alimento acessa o esôfago, o ato passa ser involuntário.

A mastigação é ato voluntário apreendido, fruto da adaptação do humano às condições alimentares. Desta forma, pelas diferentes consistências alimentares, o bebê aprende a mastigar, atingindo o padrão adulto em torno de 2-3 anos, quando a primeira dentição se completa.

São três as fases da mastigação:

1. Corte frontal do alimento.

2. Trituração nos dentes laterais

3. Moagem com os dentes molares.

O alimento pelos movimentos de língua e bochechas é transportado para o fundo da cavidade oral, de modo a disparar o reflexo da deglutição, conforme discorrido acima.

A mastigação deve ser bilateral, mas não simultânea (a não ser no uso de prótese dentária), ou seja, ora o alimento estará à direita, ora à esquerda. Manter a mastigação somente de um lado sobrecarrega a musculatura. Gera tensão muscular, alterações nas arcadas dentárias e crescimento mandibular assimétrico. O número de vezes que mastigamos e a troca de lado dependem da consistência do alimento. Podendo ser moído somente de um lado, para que no próximo seja usado o lado oposto. É mito a recomendação de se mastigar quarenta vezes de cada lado.

A postura da cabeça (o queixo deve fazer um ângulo de 90 graus com o pescoço) e a atenção dispendida durante a alimentação são fatores importantíssimos para a sinergia e funcionamento dos mecanismos de mastigação e deglutição. Principalmente em crianças e idosos, que necessitam de ambiente mais controlado dos distratores diários, como barulhos, TV etc.

Contudo, antes que as funções amadureçam há um longo caminho a ser trilhado. O bebê nasce com a laringe em posição bem alta no pescoço, quase que sobreposta à língua, para garantir segura proteção dos pulmões durante a deglutição. Há uma sincronia reflexa e involuntária entre a respiração, sucção e a deglutição. A laringe descerá no pescoço gradualmente com o surgimento dos movimentos primitivos da mastigação (amassamento) e à medida do espessamento do alimento, até atingir os movimentos mastigatórios do padrão adulto. Esta adaptação é evolutiva e gradual, o bebê não deverá pular fases.

Até quatro anos, a criança deverá ter adquirido todos os sons da fala, mas manterá até próximo dos sete anos uma leve projeção de língua, nos sons /s/ e /z/, por causa da disparidade entre o crescimento muscular e ósseo. Estes se alinharão em torno de sete anos, se a musculatura apresentar boas condições. Os problemas frequentes desta fase são as obstruções respiratórias, como aumento das tonsilas palatinas (adenoides) e faríngea (amigdalas), alergias etc. que geram a respiração bucal.

De seis à doze anos novas mudanças ocorrerão por conta das falhas dentárias, e, decorrentes delas, poderão surgir mastigação unilateral. Mordida lateral e não frontal e moagem prejudicada. Problemas de deglutição poderão estar associados ao exagero na quantidade de alimento, deglutição de lábios abertos e projeção de língua na arcada dentária. A presença de hábitos orais serão agravantes importantes, como roer unhas, apertamento de dentes, uso prolongado de chupeta ou dedo. Aos doze anos, o crescimento da cabeça estará se finalizando e, com isso, a arcada dentária ganhará contornos mais definitivos. É importante o acompanhamento do dentista em todas as fases.

A vida adulta com seus estresses e falta de tempo geram muitas tensões corporais, sendo que a região da face e do pescoço e ombros são áreas privilegiadas para tais acúmulos.

A mastigação ineficiente e/ou insuficiente são frequentes, principalmente se compartilhada com alterações dentárias – ou uma simples obturação mais alta – poderão detonar incômodos e sobrecargas musculares. Como consequência, outras dores musculares (face e anel cervical), bruxismo (ranger dos dentes, que pode iniciar com o apertamento das arcadas) e problemas gástricos…. Ou seja, dores gerarão dores, até que não se sabe quem começou o ciclo!

A qualidade da mastigação e da deglutição pioram muito com o envelhecimento, como também nos quadros de adoecimento neurogênicos, e,  causam transtornos respiratórios, nutricionais e psicossociais. Novas adaptações aos alimentos e as próteses dentárias serão demandadas. No idoso, a atenção ao processo de alimentação é essencial para compensar o mau funcionamento do sinergismo funcional. Uma pequena distração pode causar uma grande complicação.

Outros benefícios da boa mastigação e deglutição são a melhora da digestão, acentuação dos sabores, a melhora na absorção dos alimentos, a redução do estresse e dos desejos, a eliminação do mau hálito, eliminação do excesso de gases, tonificação da musculatura da face e do pescoço.

 

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Texto escrito por Profa. Dra. Izabel Viola, fonoaudióloga. CRFa 2-1391

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