A única certeza que nós temos e, ainda assim, um assunto tão evitado…

Faz parte do ciclo natural de qualquer ser vivo – planta, animal ou gente – nascer, desenvolver e morrer.

Somos os únicos seres que temos consciência da nossa morte. Um animal, se não está sob ameaça ou doente, não sente ou pressente a sua morte. Mas nós, seres humanos, sabemos que vamos morrer um dia mesmo que tudo esteja bem hoje.

Somente isso, ser consciente da nossa terminalidade. Já deveria ser suficiente para que nós vivêssemos melhor mas isso ainda não acontece com a maioria das pessoas.

Algumas culturas, como as orientais, abordam o tema da morte com mais naturalidade mas na cultura brasileira o mesmo não acontece. Em um país recordista mundial em número de cirurgias plásticas, onde envelhecer parece errado, o tema morte haveria de ser mesmo um assunto temido.

A Medicina Integrativa veio causar alguns “desconfortos” para que a gente possa refletir melhor sobre temas realmente importantes.

Em Medicina Integrativa utilizamos o termo “Boa Morte” para falar desse momento tão delicado e para mostrar que é possível passar por essa fase com mais significado, dignidade e tranquilidade.

Claro que existem considerações técnicas importantes para que isso se torne possível. Os profissionais da saúde devem saber atuar nessa fase para ajudar a pessoa e seus familiares. Mas durante a vida, em pleno estado de saúde, podemos falar sobre esse tema para facilitar as decisões quando o momento chegar.

Você já pensou e já falou para seus familiares se é doador de órgãos? Se quer ser enterrado ou cremado? Se quer ser sepultado, onde quer ficar? Se quer ser cremado, o que fazer com as cinzas? Se chegar ao estado em que a cura física não seja mais possível, não houver indicação para entubação ou reanimação (sempre é uma equipe de profissionais que chega a essa conclusão e não somente um médico), você quer que esse momento seja prolongado por meio de aparelhos?

São assuntos que devemos conversar com os nossos enquanto ainda estamos bem, pois quando esse momento chegar ficará muito mais difícil a abordagem diante da fragilidade de todos.

E quando o profissional pergunta “Qual era a vontade dele?” a família não sabe responder porque nunca conversaram sobre isso. E, muitas vezes, começa uma discussão entre os entes queridos nessa fase quando  todos poderiam estar juntos apoiando uns aos outros.

Outro costume nosso é não deixar a pessoa que está doente ou o idoso falar sobre a morte. Quando ela começa o assunto dizemos para não pensar sobre isso. Um idoso ou um doente sofre de uma “saudade antecipada”, os que ficarão aqui sofrerão a saudade depois que a pessoa querida se for. Muitas vezes a pessoa que está partindo sente a necessidade de fazer os seus fechamentos, os seus resgates, as suas despedidas. Mas nós, por não sabermos lidar com isso, impedimos que ela os faça. Algo mais para nós refletirmos sobre a nossa conduta diante da morte próxima.

Claro que não precisamos deixar para o último momento esses fechamentos. Bom seria se durante a vida déssemos valor para o que realmente importa e fôssemos resolvendo nossas questões durante a vida.

Profissionais que lidam com essa fase da vida, ou da morte, relatam que a maioria das pessoas pede para ter mais tempo para poder expressar seus sentimentos, dizer que amam, sentir-se amados, pedir perdão, perdoar, agradecer e se despedir.

Ninguém pede para ter mais um dia de vida para comprar um carro novo. Ou mais uma semana para poder terminar um trabalho, fazer mais reuniões, comandar seus funcionários…

Uma outra mudança de postura deveria acontecer com os profissionais da saúde. Ao invés de dizer “perdi o paciente” como é de costume, poder dizer que ajudou a pessoa no momento mais difícil aliviando o sofrimento físico para que ela pudesse ter mais condições de atravessar esse momento com mais segurança e tranquilidade.

Ao invés de dizer “não há mais nada a ser feito” e “abandonar” o paciente, considerar que a cura física não é possível mas é possível o alívio dos sintomas físicos para que a pessoa e seus entes queridos possam se expressar nas suas outras dimensões e realizar outras curas – emocional, espiritual, familiar, social.

Realmente é uma situação delicada e as faculdades da área da saúde – medicina, enfermagem, psicologia entre outras – não ensinam como proceder nesse momento. Bastaria ser humano, empático mas muitos não conseguem lidar com essas fortes emoções e se afastam para se proteger. Mas hoje existem cursos de cuidados paliativos para ensinar os profissionais como agir diante da morte.

A médica Ana Cláudia Arantes, da área de geriatria e cuidados paliativos, fala muito bem sobre esses assuntos em suas palestras e cursos. Nos links abaixo algumas de suas apresentações. Vale a pena assistir e refletir!

Devemos honrar a pessoa que está fechando o seu ciclo nessa vida. Honrar a vida e tudo o que realmente tem valor durante a nossa jornada. Viver de fato a vida enquanto vivos e pleno de saúde!

 

Texto escrito por Giselle Mello, fisioterapeuta pós graduada em Bases da Medicina Integrativa

 https://www.youtube.com/watch?v=5fB35evnqcc

http://gnt.globo.com/programas/papo-de-segunda/videos/4254571.htm

 http://globotv.globo.com/rede-globo/encontro-com-fatima-bernardes/v/ana-claudia-arantes-fala-dos-arrependimentos-de-pacientes-terminais/2759689/

2 Comentários

  1. maria cristina disse:

    Reflexão de fundamental importância! A morte é solitária e esse trabalho promove qualidade de morte com respeito, amorosidade e dignidade. Encantada!

  2. Annaluiza disse:

    Entender e introjetar esta fase de nossa existência. Respeitar ela mesma nos outros. É um grande exercício e uma tomada de postura necessária. Lembrando que tudo é impermanente.

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